Uma
das características mais marcantes do ensinamento de Cristo era a meta da
unidade entre seus discípulos. Antes da sua morte, num momento em que estava
emocionalmente triste por deixá-los, fez um ardente pedido. Uma pessoa, quando
está se despedindo da vida, revela os segredos do seu coração.
Nesse
momento, nada mais há para ocultar, tudo o que está represado clandestinamente
nos pensamentos vem à tona. O que estava represado dentro de Cristo e veio à
tona logo antes de ele morrer? Vieram pelo menos quatro desejos extremamente
sofisticados:
a)
A criação de um relacionamento interpessoal aberto e íntimo capaz de produzir
amigos genuínos e de superar as raízes da solidão;
b)
A preservação da unidade entre os discípulos;
c)
A criação de uma esfera sublime de amor;
d)
A produção de um relacionamento sem competição predatória e individualismo.
Como
já abordei o primeiro tópico, comentarei a seguir os demais. Cristo não queria
que seus discípulos estivessem sempre juntos no mesmo espaço físico, mas no mesmo
sentimento, na mesma disposição intelectual, na mesma meta. Ambicionava uma
unidade que todas as ideologias políticas sonharam e jamais conseguiram. Uma
unidade que toda empresa, equipe esportiva, universidade e sociedade almejam,
mas nunca conseguiram. Almejava que fossem unidos na essência intrínseca do ser
deles.
A
unidade que Cristo proclamava eloqüentemente não anulava a identidade, a
personalidade. As pessoas apenas sofreriam um processo de transformação
interior que subsidiaria uma unidade tão elevada que estancaria o
individualismo e sobreviveria a todas as suas diferenças. Juntas, unidas, elas desenvolveriam
as funções nobres da inteligência. Cada pessoa continuaria sendo um ser
complexo, com
características
particulares, mas na essência intrínseca elas seriam uma. Nesta unidade
cooperariam mutuamente, serviriam umas às outras, se tornariam sábias e
levariam a cabo o cumprimento do propósito do seu mestre.
Para
preservar a unidade proposta por Cristo, as disputas e as discriminações
deveriam ser abortadas. Além disso, para preservá-la seria necessário aprender
a sofrer perdas em prol dela. Nenhuma unidade sobrevive sem que as pessoas que
a procuram estejam dispostas a sofrer determinadas perdas para sustentá-la. Até
porque não é possível haver relações humanas sem haver também decepções.
Portanto,
para que a unidade tivesse raízes, era necessário trabalhar as perdas e as
frustrações e apreciar as metas coletivas acima das individuais Excluir,
discriminar, dividir, romper são habilidades intelectuais fáceis de se
aprender. Uma criança de cinco anos de idade já tem todas essas habilidades em
sua personalidade. Porém incluir, cooperar, considerar as necessidades do outro
e preservar a unidade exige maturidade da inteligência, exige compreender que o
mundo não deve girar em torno de si mesmo, exige desenvolver um paladar emocional
refinado, no qual se tenha prazer em se doar para o outro.
O
individualismo é um fenômeno intelectual espontâneo e não exige esforço para
alcançá-lo. Além disso, ele não gera um prazer tão rico como o prazer coletivo,
quando se está entre amigos, quando a unidade é cristalizada. Quem preserva a
unidade se torna especial por dentro e comum por fora. Quem ama o individualismo
se torna especial por fora, mas superficial por dentro.
Na
unidade proposta por Cristo os discípulos conquistam uma esfera afetiva tão
sofisticada que recebem o nome de irmãos. É muito estranho aplicar essa palavra
“irmãos” a pessoas que não participam dos mesmos laços genéticos ou da mesma
história familiar desde a mais tenra infância. Pois bem, o clima produzido
entre os discípulos de Cristo era irrigado com um amor tão elevado e difícil de
ser explicado que os tornavam membros de uma família. Uma família que está além
dos limites dos laços genéticos, que é não um mero grupo social reunido, mas
que possui a mesma história interior, na qual cada membro torce pelo outro e
contribui para promover seu crescimento interior.
Extraído
do Livro:
"Análise da inteligência de Cristo: o Mestre dos Mestres". Augusto Jorge Cury - São Paulo: Academia de
Inteligência, 1999, pag.78.
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